quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Quando for grande quero desenhar assim...

Gostava de ter vocação para o desenho, para as artes manuais em gerais. Gostava mesmo. Mas, como uma vez alguém escreveu (não me lembro quem, mas já vi isto escrito em algum lugar), tenho umas mãos que parecem uns pés.
O meu filho de 4 anos desenha monstros, praias e pedregulhos em série. Qualquer conjunto de curvas e contracurvas aleatórias (ou não) desenhado por um lápis é nomeado de praia, monstro, pedregulho ou qualquer coisa do género. Quando orientado, lá faz qualquer coisa menos abstrata, mas temo pelo peso da herança genética. Será que lhe proporcionei poucas oportunidades para desenhar e pintar? - questiono. Acho que sim, acho que podia ter feito mais.
Está numa fase em que quer pintar, desenhar, cortar, (tentar) escrever o nome. Eu vou atrás da vontade dele e instigo-o. Ele mostra-me as pinturas e os desenhos que faz orgulhoso à espera da minha aprovação, mas já não digo que está muito bonito por tudo e por nada: digo-lhe que reparei na mistura de cores, pergunto-lhe porque só utilizou determinada cor, peço-lhe para me explicar o que desenhou, faço uma ou outra sugestão, incito-o a acrescentar algo, mas não elogio por elogiar. Elogio o esforço e alguns resultados finais. Quero que ele desenhe por gosto, por um objectivo pessoal, que se esforce para conseguir desenhar o que quer, sem necessitar de aprovação externa constante. Se não ficar bem à primeira, fica à segunda ou à terceira - se sair à mãe é que é mais complicado, não sei se irá lá à terceira, mas....

Eu eu? Eu não sei se já sou crescida o suficiente para dar como um dado adquirido a minha (falta de) vocação para as artes ou se ainda vou a tempo de melhorar qualquer coisa... Talvez apanhe o comboio do miúdo e deite mãos à arte. Consciente de que vou fazer isto por mim, muito possivelmente sem receber qualquer elogio. Mas se me divertir com isso, valerá a pena.

Esta ilustração foi realizada pelo autor do livro "O mundo ao contrário". Não sei se foi realizada a pensar num público alvo, tendo em conta uma faixa etária específica (ou várias), por exemplo... Mas acuso-me já, conheço várias personagens: Popeye, Lucky Luke, Les aventures de Tintin, Snoopy...

Autor: Georg Barber, mais conhecido por ATAK

Gostava de saber conjugar cores de forma harmoniosa, mesmo quando são cores fortes; gostava de ter capacidade de passar para o papel o que a minha mente visualiza; gostava de desenhar um círculo que não parecesse um pentágono ou uma linha reta sem desvios. Basicamente, gostava de ter jeito para isto. E lembro-me agora que quando tirei a licenciatura, quando me dedicava, até conseguia realizar algo com sentido estético, mas também me lembro que tinha mesmo de me esforçar muito. E demorava imenso tempo a realizar os trabalhos. Vou rever o que fiz e analisar o que posso fazer com o miúdo quando ele me convidar a desenhar com ele.
Vou sugerir ao miúdo que feche os olhos, que pense num objecto e que o desenhe no quadro de ardósia. Sem exageros, vou tentar que  miúdo tenha mais jeito do que eu para as artes... Se ele alinhar e gostar, claro. Há sempre a hipótese de o miúdo ter herdado alguma vocação do pai. Ainda tenho esperança.

Mas, por exemplo, isto eu consigo fazer...

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Grandes livros para pequenos leitores #28 - O mundo ao contrário

Filho, este livro foi um dos presentes do teu 4º aniversário e tem esta dedicatória:
"Um dia, inevitavelmente, vais crescer mais. E ainda bem, é esse o percurso natural da vida. Vais perceber por ti que a natureza tem coisas perfeitas (o crescimento de uma criança é uma delas), mas que dela também fazem parte coisas imperfeitas, coisas que estão frequentemente fora do lugar, no lado contrário do que é suposto. Hoje não vou escrever sobre elas. Hoje espero apenas conseguir dar-te as bases para identificares o que está ao contrário; as bases para tentares contrariar o que de errado encontrarás neste nosso mundo; as bases para conseguires agir bem e por bem; as bases para seres e fazeres feliz.
Por agora dedico este livro àquela brincadeira tão nossa de te pegar ao colo, inclinar-te para trás com o apoio dos meus braços e proporcionar-te o mundo ao contrário, o mundo de pernas para o ar. Costumas pedir-me para fazer isto frequentemente. E eu faço-o orgulhosamente, como se fosse uma brincadeira que só nós é que conhecemos - não somos os únicos, mas fingimos que somos.
E agora temos uma outra brincadeira: vamos descobrir o que está ao contrário neste livro? vamos descobrir o que está no sítio errado? o que tem o tamanho errado? vamos tentar colocar as coisas nos sítios certos? Pode ser um passo para perceberes o lado certo e o lado errado das coisas...
Muitos parabéns neste dia tão especial da nossa vida, o dia 27 de Setembro".

Um livro mágico que nos leva a procurar o que está fora do sítio. Um livro com ilustrações extraordinárias que nos leva a refletir sobre o que podíamos ser e sentir se invertêssemos papéis. Um livro muito bem pensado. Um livro de ATAK, da Editora Planeta Tangerina.


A propósito da minha resistência ao circo - já fomos uma vez, mas não tenho vontade de repetir; os avós do miúdo perguntaram-nos há dias se queríamos ir ao circo com ele, a nossa resposta foi imediata e negativa:


Este livro permite-nos colocar no lugar do outro, refletir sobre o que sentiríamos se estivéssemos no lugar do outro, inverter papéis (depois de lermos este livro pela primeira vez, o meu filho fez de conta que era o pai e eu a filha), realizar desenhos e pinturas ao contrário...
Este livro é um álbum ilustrado sem qualquer texto a completá-lo, o que nos permite dar azo à imaginação. Quando chegamos a esta página, podemos completá-la com "e naquele mundo longínquo onde tudo acontecia ao contrário, os animais iam ao circo ver as acrobacias que os homens conseguiam realizar" ou "naquele mundo criado ao contrário os homens faziam a vez dos animais no circo de Natal... será que gostavam?"... O texto que inventamos depende dos objetivos que definimos, da ocasião, das crianças que nos ouvem.

Uma das propostas que integrou as Atividades de Verão na escola do meu filho: crianças deitadas no chão debaixo de uma mesa; folhas de papel brancas coladas na parte de baixo do tampo da mesa; desenhos e pinturas realizadas ao contrário - chamaram-lhes "pinturas do avesso". A postura da criança ao realizar a atividade é contrária à habitual, a perícia manual é trabalhada. Será que foi muito difícil?

 Imagem retirada daqui

Depois, aumentaram o nível de dificuldade: pintaram assim e desenharam com um lápis entre os dedos dos pés:

 Imagem retirada daqui

O mundo ao contrário: um livro com tantas possibilidades educativas. 
Há 2 anos escrevi um texto com este título.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

As férias que eu quero incluir na normalidade dos dias

As férias já lá vão, mas tal como o ano passado foram regeneradoras. Estivemos uma semana sozinhos (os três) e foi perfeito, mesmo contabilizando todas as imperfeições com que nos deparámos: o miúdo com febre na antevéspera da partida, a antibiótico na véspera e com anúncio de mau tempo. Apanhámos mau tempo no dia da chegada e no dia seguinte, dias estes que coincidiram com o início do antibiótico - não nos importámos porque tínhamos indicação para não irmos à praia nestes dias. A partir daí foi sempre bom. Centrámo-nos no facto de termos umas boas férias e conseguimos. Regressámos ao sítio onde já fomos felizes e fomos felizes novamente. As discussões não passaram de simples trocas de ideias. Vivemos aqueles dias sem pressa, tomámos o pequeno almoço devagar, fizemos as refeições sem olhar para o relógio. Abstraímo-nos da internet e da imensidão dos canais de televisão. Soubemos de poucas notícias. Fizemos puzzles, jogámos ao dominó, jogámos à bola e fizemos teatro de fantoches. Encontrámos a água do mar tépida. Reencontrámos o barco queimado e o sítio secreto. Passeámos pela ilha no meio de transporte que escolhemos para estas férias (ele passeou, a nossa função foi mais a de puxar o dito meio de transporte). O miúdo esteve afoito e entrou no mar sem receio. Recuou um pouco quando a prima chegou, talvez porque a viu mergulhar, nadar bem e depressa. Aos poucos voltou ao normal. Ele recebeu uma grande surpresa a meio das férias: a prima. A partir daí as brincadeiras a três passaram a ser, maioritariamente, a dois. Os dois, juntos, andaram de trotinete, brincaram e discutiram, fizeram cabanas na praia, observaram peixes no mar, apanharam berbigão, colecionaram conchas e pedras, dormiram juntos. Deslumbro-me quando os vejo crescer em cumplicidade.
Fui para a Ilha 15 dias a pensar que iria a Lagos, que iria subir ao interior para visitar uma praia fluvial, que daria um pulo até Espanha. Mas, tal como aconteceu o ano passado, não senti qualquer necessidade em sair daquele pedaço de terra. Pelo contrário.
Regressámos à nossa casa e eu não senti a tristeza que senti o ano passado: sei que serei feliz quando regressar. Queremos regressar à Armona no próximo ano e viver a liberdade e a descontração que ela nos proporciona. O miúdo sentiu ambiguidade no regresso: as saudades de casa e o querer viver nas férias.
O regresso à normalidade dos dias fez-me ter (mais) consciência de que vivemos de forma pouco saudável (a todos os níveis). Estou agora a tentar trazer para a realidade dos nossos dias o estado de espírito das férias. Isto tem de ser possível, bolas!
Querida Armona, até para o ano!

A música do regresso:

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

4 anos: como foi e as saudades que eu vou ter... ou as saudades que eu já tenho

Se me pedires uma palavra para descrever o teu 4º ano de vida, eu peço-te 4: amor. fantasia. negociação. superação. 

amor, porque está sempre presente, porque vem antes de tudo o resto, porque é o maior de todos os sentimentos, porque faz parte do que somos enquanto mãe e filho, porque com ele tudo se consegue, porque ao mesmo tempo que está no topo da nossa relação é também a base dela. Porque comecei a amar a ideia de te ter muito antes de te ter. Porque quis o destino que as nossas vidas fossem costuradas a fio de amor: fio forte, inquebrável, invisível, que une dois pedaços de matéria independentes com uma força indestrutível. Incluo no amor a palavra gratidão: obrigada vida por este filho, obrigada filho por este amor, obrigada amor pela oportunidade de te (re)descobrir. 

fantasia, porque foi o ano em que mais fantasiaste, em que mais fantasiamos. Posso até dizer que foste um verdadeiro Peter Pan na sua terra do nunca, nas suas histórias irreais, envolto na sua fantasia. Também foste o porquinho mais velho, personagem de eleição que adotaste e que interpretaste na perfeição. Foste pirata sempre que vestiste o fato de Carnaval ou saíste de casa com o chapéu da caveira, espada na mão e pala no olho. Foste gato das botas quando em pleno mês de Agosto quiseste calçar as botas de borracha. Foste lobo e monstro sempre que nos assustaste. Foste palhaço com as tuas frases cheias de graça e de humor. Foste advogado quando argumentaste com convicção. Foste e és uma fantasia realizada, imaginada nos mais doces e secretos sonhos. 

negociação, porque muito negociámos. Consequentemente discutimos e argumentámos. Muito ensinei e muito aprendi nesta dança de exigir e de ceder, de dar e receber, de pedir e satisfazer, de compreender o que eu quero e de respeitar o que tu queres.

superação, porque não foi um ano fácil. Foi trabalhoso, cansativo, desafiador, mas superado.

Não sei como estabeleci esta mudança de etapa na minha cabeça, mas sinto que é aqui que deixas de ser bebé, pelo menos apenas bebé. Talvez situe esta idade num plano intermédio de bebé-menino, porque o meu coração não consegue ainda aceitar que o bebé que foste fica para trás, nas páginas já escritas, na história já vivida e construída. A história dos teus 4 anos de vida e dos meus 4 anos de mãe fundem-se e eu agradeço esta fusão. Desejo que, apesar dos pontos e das virgulas da nossa história, o texto seja fácil de ler, de viver, de entender. E que provoque em nós e naqueles que nos rodeiam um sorriso aberto e sincero. Quero viver bem e quero que vivas bem. Quero que gargalhemos juntos muitas vezes.
Haverão capítulos em que terei uma participação regular, em que a (minha) assiduidade importa, na medida em que farei falta. Outros em que deixarei os papéis de maior relevo para te dar espaço e oportunidade de construíres a tua personagem e a tua história (a verdade é que já estás a construí-las). Outros ainda em que serei apenas leitora. Estará tudo bem, tudo tem o seu tempo, o seu ritmo, o seu espaço. Independentemente do papel que eu tenha nos diferentes capítulos, lembra-te só que o amor que por ti sinto é crescente. Não consigo quantificar esse crescimento, mas sei que quanto maior for a história, mais te amarei. Que ela seja longa, queremos longevidade.
Passados 4 anos não consigo deixar de te olhar em silêncio e sorrir como de uma aparição divina se tratasse, com aquele encanto ingénuo e infantil que as surpresas boas nos trazem. A verdade é que ser tua mãe tem sido um privilégio. Foste, sem dúvida alguma, a melhor surpresa, a surpresa da minha vida, o amor de uma vida toda, apesar dos 37 anos que nos separam.
Cativaste-me desde o primeiro segundo, meu amor: a fazer-me sorrir desde as 16h29m do dia 27 de Setembro de 2013. E todos os dias me conquistas mais. Desde 2013: ano em que engravidei, ano em que me descobri grávida, ano em que te descobri menino, ano em que me nasceste e que nasceste para o mundo. Tudo em 2013.

Feliz aniversário, meu menino de amor, traquina e explorador.  Desejo com o coração que tenhas um feliz 5º ano de vida. Todos os anos peço o mesmo, adotei esta frase como sendo minha, mesmo não sendo: que tenhas um destino bonito.

Coisas que te escrevi nos 2º e 3º aniversários:
- A carta que te escrevi por ocasião do teu 3º aniversário.
- As cartas que te escrevi por ocasião do teu 2º aniversário: esta e esta.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Grandes livros para pequenos leitores #27 - Onde perdeu a Lua o riso?

Mais uma história da biblioteca: "Onde perdeu a lua o riso?". Este livro tem um texto curto e simples, que ganha vida com as imagens expressivas que o ilustram.
Daniel questiona onde perdeu a Lua o riso: uma vez, outra e outra... Porque reconhece a importância de rir. Faz-lhe confusão não saber do riso de Lua. E quando a mãe não lhe sabe dizer onde ele está, o menino parte à procura do riso da irmã.
Onde terá a Lua perdido o riso? "Na barriga da cabra? Sobre o bico da pata? Entre os ovos das galinhas? Debaixo do escano da cozinha?"
O meu miúdo memorizou o texto correspondente a cada ilustração: à medida que vai folheando o livro, vai contanto a história em voz alta.
No final lê-se: "...uma lua barriguda morria de riso...". O miúdo é literal e faz beiço porque a Lua morreu de riso. Quer ver a Lua rir à gargalhada, mas não que morra de riso. Se rir é uma coisa tão boa, por que raio morre a  Lua (ainda que seja de riso). Lá lhe expliquei que neste caso a palavra "morrer" tem outro significado, quer dizer outra coisa, quer dizer que ela ri muito, muito, muito.  Termino esta história a fazer-lhe cócegas. E a ouvi-lo rir. E hoje, dia 24, é dia de "comemorar a rir".

É um livro de Miriam Sánchez e Federico Fernández, da editora Kalandraka.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Reflexões profundas (ou não) #34 - Dirty Dancing tem 30 anos!?

Dirty Dancing tem 30 anos!? Deve ser para me lembrar que amanhã completo mais uma volta de vida. 
Vi este filme dezenas de vezes, deve ser a cassete de vídeo mais vista de sempre (na minha casa). 


Vi esta cena tantas, tantas, tantas vezes.


Dizer que o Patrick Swayze foi o responsável por tantas visualizações deste filme será injusto, mas.... Também gostei muito de o ver na série "Norte e Sul". Em todas as brincadeiras alusivas à representação desta série, eu era a Madeline. Sim, só porque ele era o Orry Main.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Logo, quando chegar a casa, quero pedir-te desculpa

Logo, quando chegar a casa, quero pedir-te desculpa: fui brusca contigo esta noite.
Posso dizer-de que estou cansada. Que há mais de uma semana que acordas às 6 e pouco da manhã. Que perdi a conta ao número de vezes que acordaste esta noite: primeiro na tua cama, depois na minha, por quereres fazer xixi no bacio, por fazeres xixi na cama, por quereres água ou por não conseguires respirar em condições. Por tudo e por "nada" - digo eu, que por nada é que não foi. Que andas chato, birrento, a lamuriar-te vezes a mais. Que às vezes demonstro que estou cansada elevando o tom de voz, que estou farta de te ouvir fazer birras. Que às vezes estás cansado, que agora estás doente, que outras é só porque sim. Que o meu cansaço se arrasta. É verdade que é um cansaço físico, mas não só. Estou cansada, principalmente, por ainda não ter aprendido a lidar com as diferenças que existem entre nós: entre a energia que se excede em ti e a que me falta a mim; entre o meu cansaço e a tua luta contra o teu; entre as tuas escolhas e as minhas. Posso dizer-te muita coisa, encontrarei muitas desculpas para me justificar. Mas, por agora, só quero mesmo pedir-te desculpa. Desculpa, filho.

 Imagem retirada da Internet: fonte desconhecida

Estou na hora de almoço. Já pensei em ti muitas vezes, deve ser a culpa. Estou para aqui a pensar que se eu estou cansada, tu deves estar de rastos. E que ainda assim, foste à escola. Estou a pensar que, logo hoje, tenho tanta coisa para fazer. Hoje, que tenho tanta pressa em abraçar-te, vou sair mais tarde.
E tu, querido dia, não podes negar que és segunda feira. Mas não te esqueças que és só o começo, o final escolho eu.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Novamente à conversa "comigo mesma": o que é isso da igualdade de oportunidades?

Falo comigo muitas vezes, a verdade é esta.
Há algum tempo que questiono o que é isso da igualdade de oportunidades/de direitos. Isso existe? Ou será apenas um trio de palavras arrumadas estrategicamente para agradar a maioria.
É claro que todos os seres humanos deveriam ter as suas necessidades mais básicas satisfeitas e deveriam viver com dignidade. Estou a falar de coisas que vão para além dessas necessidades básicas, até porque a definição de "viver com dignidade" já pode conter alguma subjetividade. No caso da educação estou sempre a questionar o que é e em que consiste a igualdade de oportunidades, já escrevi sobre isso aqui.

Alguns direitos que considero essenciais (não estão enunciados por ordem de importância):

Todos têm o direito de ter filhos. 
Claro que sim. Mas a verdade é que uns conseguem, outros não. Umas engravidam só de pensar (isto é uma metáfora, não acreditem nisto), outras sujeitam-se a inúmeras frustrações consecutivas que se traduzem, muitos vezes, num sem número de tratamentos. Uns podem, outros não. Uns conseguem ter um filho, outros conseguem ter quatro filhos. Uns querem ter, outros não querem.

Todos têm o direito de sentir segurança e amor.
Basta lembrar alguma família menos funcional em que a segurança e demonstração de amor são conceitos abstractos ou inexistentes. Nestas situações, por vezes, até pode aparecer alguém a querer ajudar, a querer colmatar falhas, mas nem sempre estas tentativas são bem sucedidas: há pessoas que aceitam; outras não sabem aceitar; outras não querem aceitar. Como se faz para que todos tenham a oportunidade de sentir isto? Todos precisam disto na mesma quantidade?

Todos têm o direito a ter uma casa.
Sabemos muito bem que nem todos têm. E há quem diga que muitos não querem ter.

Todos têm o direito à Educação.
Claro que sim. Mas todos têm direito à educação que querem? E, já agora, todos querem?

Todas as crianças têm o direito de frequentar uma Escola Pública de qualidade a partir dos 3 anos.
Claro que sim. Mas a verdade é que uns querem, outros não. Nem todos os que têm 3 anos conseguem frequentar o ensino público. E os que frequentam, nem todos estão na sua primeira opção, aquela que é mais benéfica para si. E o que é isso de uma escola Pública de qualidade? E os que precisavam de uma Escola Pública antes dos 3 anos? Possivelmente têm de fazer uma triagem logo no primeiro ponto relativamente ao número de filhos.
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Todos têm o direito de usufruir de um Plano de Vacinação, independentemente das suas possibilidades financeiras. 
Claro que sim. Mas a verdade é que uns querem, outros não. Uns querem administrar todas as vacinas à sua descendência, outros, com algum dinheiro extra, conseguem administrar as que se encontram fora do Plano Nacional de Vacinação. 

Todos têm direito a um Plano/Seguro de Saúde.
Claro que sim. Mas algumas crianças são acompanhadas por pediatras, outras por médicos de Clínica Geral no Centro de Saúde (não retirando o mérito aos médicos do Centro de Saúde, mas neste momento não há Pediatra no Centro de Saúde da minha área de residência, por exemplo - não me digam que o médico de Clínica Geral faz o papel do pediatra: então porque é que existe a especialidade?.

Todos têm direito a uma alimentação saudável.
Claro que sim. Mas sei bem a diferença de valores entre os produtos biológicos e os "não biológicos", por exemplo.

Todos deviam ter direito a muita coisa. Isto da igualdade de oportunidades, apesar da boa intenção, dá muito que falar: escrevi sobre coisas que considero essenciais (segurança, amor, saúde, alimentação, educação...), mas até nestes pontos não estamos todos de acordo. A verdade é que não queremos todos as mesmas oportunidades. A verdade é que é muito, muito difícil que todos tenham acesso às mesmas oportunidades, por vários motivos. Como é que fazemos?

Eu queria ter 2 ou 3 filhos e ter disponibilidade financeira e mental para os acompanhar. Queria ter tempo para eles. Queria trabalhar no que gosto, sair cedo e ganhar para os gastos. Queria viver feliz, sem discussões domésticas mesquinhas e sem importância que me consomem. Queria poder comprar tudo na mercearia biológica da minha terra. Queria poder administrar todas as vacinas que, apesar de todos os pontos de vista discutidos, me sossegam a alma; pelo menos fico mais sossegada com elas administradas do que sem elas. Queria ficar com o miúdo a tempo inteiro até aos dois anos (isto já lá vai, ele vai fazer 4), parcialmente até aos 4 e não estar mais do que 6/7 horas diárias longe dele. Mas também queria ter 1 hora diária para fazer o que me apetece, de modo a garantir o alinhamento dos chácaras (seja lá o que isso for, acho que um bom alinhamento faz sempre bem). Queria tirar o mestrado na área da Educação. Queria escolher a educadora e a escola do meu filho. Queria ter um papel ativo na educação do meu filho. Queria ter uma auto-caravana e substituir alguns dias de escola do miúdo por viagens nesta casa ambulante sonhada. Queria ter uma saúde de ferro e poder dispensar as visitas aos médicos (dispensava as minhas e as dos meus). Queria viajar fora de Portugal de quando em vez e viajar muitas vezes cá dentro. Queria uma casa simples e arrumada com um espaço exterior. Queria um carro económico (não sendo muito, muito económico, até ficava com o que temos). Ou então vestia a vontade do meu filho que gostava mesmo era de viver "nas férias"... Talvez seja só porque precise muito de férias, mas desconfio que me habituava facilmente a este cenário hipotético.
Para dizer a verdade, eu queria que investissem em práticas e políticas que nos fizessem viver bem e felizes, sendo que este "viver bem e feliz" fosse feito à medida de cada um: sim, eu queria ganhar menos, consequentemente trabalhar menos (apesar de ganhar pouco), ter mais tempo para o que me faz bem à alma, ter menos bens materiais (talvez tivesse de desistir da auto-caravana; desistia antes de viajar fora de Portugal), abdicar de coisas que (para mim) são secundárias. Quem quisesse trabalhar mais, ganhar mais, viajar mais, ter um carro melhor, uma casa maior, força. Os sonhos de uns não têm de empatar os sonhos dos outros. Nem os sonhos de uns são melhores dos que os dos outros. Cada um com os seus.
Estas são algumas das minhas vontades e representam o que valorizo. Cada um tem as suas vontades, as suas preferências, os seus sonhos. Teremos todos a oportunidade de os cumprir? Bem, pelo menos todos temos a oportunidade de tentar. Ou não... que isso de se dizer que querer é poder, não é bem assim. Apesar de o querer ser muito importante, nem nisto, a que chamamos oportunidade de tentar, há igualdade.

a fugir de um dia de escola (dito normal)... 
 Imagem retirada daqui

Alguém que me conhece bem diz que tenho de resolver os problemas que tive com a escola que frequentei e com a aluna que fui. Tem razão. Não anulando as minhas opiniões sobre o assunto "Educação", não devo assumir que o meu filho terá os mesmos problemas/as mesmas dificuldades. Esforçar-me-ei por não fazê-lo.  
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Esta divagação pode conter muita utopia, mas estamos em Agosto, não tarda muito estou a completar mais uma volta de vida, falta pouco para ir de férias... Apetece-me divagar.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Birras de felicidade

Escrito assim até se pode pensar que estou louca, que uma birra não traz felicidade a ninguém, apesar de sabermos que faz parte do crescimento, que é importante para o desenvolvimento, blá, blá, blá (sem desvalorizar o blá, blá, blá). A questão é que o miúdo anda tão, mas tão feliz, que não sabe bem como gerir tamanha felicidade. Ou melhor, não sabe gerir a excitação, o cansaço e o sono que se acumulam com tanta felicidade.

Perante uma semana com muitos motivos para andar feliz da vida, fez birras, andou agressivo. Bateu-me, bateu na avó, bateu no pai, levantou a mão à tia ou bateu-lhe mesmo (não percebi bem), empurrou uma menina no parque, bateu na prima (ela ignora que ele lhe bate, mas... eu não lido bem com isto). Fez birra porque não quis levar as crocs, fez birra porque quis vestir sempre camisolas de alças, fez birra porque quis comer sempre papa... Fez birras. Muitas. A tia acha que lhe deu muito mimo, acha que a culpa é dela. Não, não é. Ele anda efectivamente feliz, porque adora ir ao parque com as duas (tia e prima), gosta de jantar com elas, gosta do mimo da tia e das brincadeiras com a prima. Só temos de lhe agradecer por isso e pelo tempo que lhe dedicou. Mas ele não está bem. Está muito, muito cansado.

Falámos com a auxiliar da sala dele: não quer dormir a sesta, é sempre o último a adormecer, não dorme mais do que meia hora. Nestes dias, em que muitos miúdos estão de férias, ele brinca e corre muito mais do que o normal na escola. Depois da escola, brinca mais do que o habitual porque tem a adorada prima à sua disposição, deita-se mais tarde, anda excitado com tantas possibilidades de diversão. Parece-me que quer aproveitar o melhor de todos os lados, mas não consegue lidar com o cansaço que sente, acho até que o tenta contrariar. 

Na quarta feira à noite houve birra digna de palco (salvo seja, tomara eu esquecer-me que ela existiu, quanto mais elevá-la a este nível). Eu contrariei o que achei que tinha de contrariar, mas comecei a pensar em estratégias. Porque não fiquei bem comigo mesma, porque achei que podia ter feito de forma diferente.


Quando consigo prever, ou colocar na equação dos dias, que as coisas podem correr menos bem, consigo criar estratégias simples que funcionam com ele (e comigo): digo as coisa num tom calmo, meigo até, mas firme, sem grande manobra de divagação; digo-lhe o que vamos fazer e oriento-o nesse sentido. Quando não consigo prever, quando estou muito cansada ou apressada, eu própria faço birra e a coisa culmina com o aumento de cansaço para os dois. No fundo, acho que o desenvolvimento desta minha capacidade, de previsão ou contemplação de birras no dia a dia, pode funcionar  como um controlador de stress. Só preciso de aperfeiçoar a técnica. :)
No dia seguinte à birra monumental, o adormecer foi tranquilo, com uma história contada num tom de voz baixo e com regras: é hora de ouvir a história, só ouvir; de te virares para o teu lado preferido; de sossegares; se estas condições não estiverem reunidas, eu não posso ler. Só leio uma história. Depois, desejei-lhe boa noite e beijo-o. Apaguei a luz. Deitei-me ao seu lado. Deu umas voltas e adormeceu. Dormiu a noite toda. Com ele resultou.
Quando se levantou e veio na minha direção, ainda com um olho aberto e outro fechado, peguei-o ao colo e deixei-o acordar calmamente. Beijei-o, passei-lhe as mãos pelo rosto, perguntei-lhe se tinha dormido bem. Já quase a sair de casa, disse-lhe que tinha de levar as crocs, porque tinha jogos com água na escola. Disse-lhe que tinha uma camisola para vestir que, por acaso, era de alças. Perguntou-me se podia comer papa - não podia, a papa acabou e eu nos próximos tempos não vou comprar mais (já lho disse e já lhe expliquei o motivo, não repeti mais a justificação), comeu iogurte com cereais. Dei-lhe o abraço e o beijo do costume e pedi-lhe que ajudasse o pai (depois de eu sair ele fica só com o pai, é ele que o leva à escola na maioria dos dias). Ajudou. O final do dia de quinta feira correu bem e o início de sexta também. No sábado e no domingo fez sestas de quase 3 horas na tranquilidade da nossa casa.
Conversei com ele sobre o facto de andar tão cansado e de ter feito tantas birras, sugeri que tentasse descansar mais na escola. Disse-me que não gosta de dormir na escola, que quer dormir na Ama. Hoje levou um boneco para o ajudar a adormecer na escola. Vamos ver como corre.

Ele ainda precisa de dormir à tarde, mas não descansa na escola como em casa. Isto é um problema. Ele fica elétrico, fica completamente desnorteado. E nós, se não encontrarmos estratégias ou se não conseguirmos que ele descanse mais, também. Um dos motivos de não o inscrevermos num JI Público foi precisamente o facto de não poder dormir a sesta, mas mesmo no privado e com esta possibilidade, estamos a deparar-nos com esta dificuldade. Vou voltar ao meu horário normal (tenho feito horas extraordinárias) e penso que isso ajudará.
Lembro-me de a minha sobrinha passar por uma fase semelhante (um pouco diferente), em que todos os colegas da turma conseguiam ver um filme, por exemplo, e ela não. Não conseguia estar quieta. A educadora (do JI) acabou por sugerir que alguém a fosse buscar às 15h00 (que ela não ficasse na escola depois das 15h para as atividades), se fosse possível. No caso dela, com 5 anos, foi possível e resultou: ela precisava de dormir a sesta. E quando isto não é possível e os comportamentos fora do normal se mantêm e se arrastam no tempo? Quais são as dificuldades e os problemas que daqui advêm? Muitos, penso eu.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Reflexões profundas (ou não) #33 - Férias antes das férias

Ela está em contagem decrescente para ir de férias: faltam 3 semanas. Está estafada, farta da rotina, cansada de sapatos e de roupas apertadas e engomadas. Por vezes, jura que é capaz de partir o telemóvel só porque o intrometido tem a mania de tocar à hora marcada. Para agravar este quadro, a sua colega foi de férias e ela tem de fazer horas extraordinárias. As ordinárias das horas pesam-lhe. O sócio do seu companheiro-amigo-namorado também foi de férias e o dito chega a casa quando o miúdo já dorme. A casa continua sem se arrumar. A empregada foi de férias mesmo antes de ser admitida. Brinquedos e livros saltam das prateleiras sem ninguém perceber o motivo. Roupa suja multiplica-se. E, sabe-se lá porquê, as pessoas que habitam a mesma casa que ela têm de comer todos os dias. Mas a tia do miúdo ofereceu-se (leia-se exigiu) para ir buscar o miúdo à escola, para lhe dar banho e para lhe dar o jantar toda a semana. Se isto não são "férias antes das férias", não sei o que serão.
Só um pedido dela, que pedir não custa: férias depois das férias, também se arranjam? Sim, ela sabe que vai precisar, é uma visionária.

E com tudo isto, o miúdo da minha vida vai andar feliz da sua porque vai estar com a prima todos os dias. A prima é, definitivamente, um dos grandes amores da sua vida. O outro sou eu... acho eu.  

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Frase para o (meu) mês de Agosto: deixem-me da mão, calem-se todos, que eu quero ser mãe só por intuição

Deixem-me ser mãe só por intuição. Deixem-me despir as teorias que eu própria vesti, convencida de que me assentam bem. Deixem de me gritar as (pseudo) teorias em dialectos que não compreendo, talvez eu não tenha grande vocação para a interpretação. Deixem de publicitar boas práticas embrulhadas em palavras caras, porque o meu orçamento não me permite adquiri-las. Deixem-me deitar fora os meus preconceitos, não os vou dar a ninguém já que a ninguém fazem falta. Deixem-me da mão. Deixem-me ser mãe só por intuição.

É difícil contrariar o que me é natural desde sempre, contrariar a minha experiência de vida, contrariar tudo o que vivi e tudo o que fez de mim o que sou. Mas cheguei à conclusão que também não é fácil navegar contra a minha essência. E que esta até pode ter aspetos razoáveis. Nesta coisa que é a prática quotidiana da maternidade é impossível fazer tudo certo, já o sei há muito. Sempre o soube. Mas há momentos em que as coisas menos certas se sucedem, como um extenso comboio que passa à nossa frente, que nos impede de passar para o outro lado da linha, com uma locomotiva seguida de uma carruagem, e de outra, e de outra, com aquela música de fundo a toda a velocidade, sem hipótese de parar, só com o destino como alvo. Até que, de repente, ouves aquele apito sonoro e imponente, os teus alarmes internos disparam, arregalas os olhos e fixas o olhar no outro lado da linha, mesmo com o comboio a passar a todo o vapor. Porque sabes e porque sentes que é para ali que deves ir: para o outro lado da linha. Assim sendo, às vezes fazes tudo errado, mas consciente do que (para ti) é certo. Então, começas a caminhar no sentido inverso ao do comboio, desvias-te dos maus caminhos que se apresentam e voltas ao teu lado da linha, ao lugar certo (para ti). Foi a tua essência que to disse. E aos alarmes internos que disparam e que te repreendem chamas de "minha intuição". E se assim o é, deixem-me da mão, calem-se todos, que eu quero ser mãe só por intuição. E aquela frase de que "não andamos aqui só a ver passar os comboios" faz todo o sentido. Apanhamos os que nos levam a destinos desejados e ignoramos os demais.


Imagem retirada da Internet: fonte desconhecida

Há teorias interessantes, há exemplos inspiradores, há relatos motivadores. Mas também há teorias extenuantes, rebuscadas, desinteressantes. E eu estou numa fase em que já não consigo aceitar, nem sequer ouvir, tudo o que têm para me dizer. O que eu preciso é de me ouvir mais, já que denoto um conflito entre o que a atribulação dos dias e vivências passadas me levam a fazer e o que eu quero fazer; entre o que sou e o que fizeram que eu seja (consciente de que a essência que me calhou não é feita apenas de virtudes nem herdei só defeitos). Para isto preciso de silêncio. É só isto.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Olá Agosto de 2017

Agosto é, por excelência, um mês de comemorações. É festeiro. É rebelde. É forte. É desobediente. É boémio. É descontraído. É livre. É meu. É, literalmente, o meu mês. Espero que me reserve dias de praia, dias de piqueniques, passeios, aniversários, início de férias.
E nos últimos dias deste mês esperam-me: uma viagem de barco, uma ilha, um passadiço como este, um mergulho no meu mar (um de cada vez), uma casa pequena, uma família junta.  

Imagem retirada da Internet (fonte desconhecida)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Olá e Adeus meu querido mês de Julho de 2017

Despedi-me de Junho com tanta pressa que acabei por me esquecer de cumprimentar Julho. E agora que já estou com os pés em Agosto é que me deu para as lamechices Julinas - costumamos falar em festa Junina, mas permito-me adaptar o léxico das lamechices aos meses de que falo.
Julho, não foste propriamente um mês maravilhoso, mas já me habituei que não o sejas. Não reclamo nem lamento. Foco-me apenas no bem que me trazes e aproveito os rochedos sinuosos que plantas à minha frente para treinar a elasticidade, a força e o equilíbrio. Escalo o paredão, por vezes sem corda nem grande proteção, e quando chego ao cume decido se passo para a outra margem descendo vertiginosamente ou em modo de "suspensão". Sempre apreciando as vistas.

Imagem retirada daqui

sexta-feira, 28 de julho de 2017

À conversa com o meu filho #17 - Mais conversas esquecidas, mas mais animadas


Conversa I
- Gostas de vinho? - perguntou à Ama.
- Não gosto muito. - respondeu-lhe ela.
- A minha mãe e o meu pai gostam. Quando for grande também vou gostar...

Conversa II
 - Wã, gôn e sons afins. - Repete o miúdo enquanto vê a história de Os Três Porquinhos em chinês.
Já escrevi que não aguento os Porcos, não já!?

Conversa III
- Peço-lhe para estar quieto enquanto lhe corto as unhas. Não fica quieto. Zango-me e reclamo.
- Não quero que te zangues, mãe. Estás feliz? - pergunta-me enquanto me dá um beijo e me abraça.
Sacana!

Conversa IV
- Mamãzita e papazinho - é assim que nos trata nos últimos dias.
(Era assim. Esta fase, entretanto, já passou)

Conversa V
- Passámos uns dias fora e encontrámos uns amigos. Um dos casais tem uma filha que foi elogiada da seguinte forma: Pareces uma sereia! (Isto já foi em Abril).
Vá lá, não lhe chamar sereia, gata com rabo de baleia (Musical Capitão Miau Miau).

Conversa VI
- Filho, andas a preparar surpresas para a festa do dia da mãe?
- É segredo, não podemos dizer às mães. Nem a ti.
Ninguém me mandou perguntar.
(Isto foi em Maio... claro, o dia da mãe é sempre em Maio)

Conversa VII
- O pai pede-me queijo, eu reclamo que tenho pouco... O miúdo grita da casa de banho: temos de partilhar.

Conversa VIII
- Quando alguma coisa não lhe agrada, ele diz alto a seguinte frase: Ai mãe do Céu.

Conversa IX
- Filho, sabes que, para mim, és a pessoa mais importante do mundo?
- Ele olha-me nos olhos fixamente.
- Sim, és.
- A sério!? - pergunta-me espantado.
Filho, já to disse tantas vezes... Já percebi que nunca é demais dizê-lo.

Conversa X
- Mãe, quando fores pequenina vais para a minha barriga?
- Não filho, a mãe já foi pequenina. Estive na barriga da minha mãe, que é a tua avó, tal como tu estiveste na minha.
- Como?
- O pai pôs uma semente na barriga da mãe.
- Como? Pela boca? Comeste a semente?
... (tive de lhe contar a história verdadeira).

Conversa XI
Saímos da serra e lá no alto estava a lua, ainda tímida e escondida, mas a querer mostrar-se. Chegámos a casa e lá estava ela novamente, já mais descarada e nítida.
Ele perguntou-me: Mãe porque é que a lua anda? E lembrei-me desta conversa com a miúda e desta história dedicada a ela.
Se estivesse em casa com o miúdo, na modalidade de ensino doméstico, por exemplo, seria este o tipo de questões que aproveitaria para trabalhar com ele as mais diversas áreas.

À conversa com o meu filho #16 - Conversas esquecidas na pasta dos rascunhos

Encontrei este rascunho esquecido.

- Mãe, não te quero perder.
- Filho, não me vais perder...
- E ao pai?
- Também não, meu amor.
- Uma vez perdi o pai. (Teve um pesadelo em que perdia o pai, ainda não o esqueceu).

Há umas semanas perguntou ao pai se eu ia morrer. (Madeira, madeira, madeira). Depois, seguiu-se a seguinte conversa:
- Mãe não quero que morras. Vais morrer?
- Só daqui a muito tempo, quando for muito velhinha. e quando tu também fores muito velhinho.
- Daqui a umas semanas? - perguntou ele.
- Não filho, ainda falta muito tempo para ser velhinha.
- Não mãe, tu já foste velhinha. E eu também.
- Então isso significa que vamos voltar a ser meninos os dois, filho?
- Tu vais ser menina, mãe. (se tu o dizes, filho, eu acredito).
Arrependi-me desta conversa, pelo menos com este discurso. Ele não tem noção o que é daqui a muito tempo, nem o que é ser muito velhinha/o, nem quanto tempo vou demorar a ficar velhinha. Ele tem uma avó velhinha, mais velha do que as outras, mas não sabe quanto tempo é que ela levou para chegar ao estatuto de "muito velhinha".
No final tentei tranquilizá-lo, disse-lhe que estarei sempre por perto; que se não estiver, mesmo que seja por pouco tempo, as pessoas que gostam dele estarão disponíveis para para cuidar dele e para o ajudar; falámos das pessoas que gostam dele e que lhe são próximas. Acrescentei ainda que, mesmo estando por perto, se necessitar de ajuda, há gente disponível para me ajudar.
Dias depois voltou à carga: Mãe, não quero que vás para o céu como o teu pai... Mais um agradecimento à querida tia por falar de "realidade" com o miúdo.

Não quero morrer cedo, não quero morrer nova, acredito que a maioria das pessoas não quer. Quero viver bem, com saúde física e psicológica. Não quero viver vazia de recordações, não quero esquecer o que vivi, não quero deixar de me lembrar da pessoa que sou. Confesso que um dos meus medos é "desaparecer" cedo, antes de o ver crescido, formado no curso da vida que ele escolher, adulto realizado, velho, amigo, saudável, feliz. Há medos que ganham tamanho depois de sermos mães, este é um deles.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Excertos dos nossos dias e desejo para o fim de semana

No fim de semana passado decidi ir à piscina (recreativa) com o miúdo. Só eu é que pago, entramos os dois, divertimo-nos dentro de água e eu ainda faço algum exercício físico. Aproveitamos o material que os professores utilizam nas aulas.
Andava a fazer contas para inscrevê-lo na natação, estava complicado, decidi agora que vamos os dois uma vez por semana: fica mais barato e se não pudermos ir, não pagamos nem perdemos aulas. Não é a mesma coisa, eu sei, mas desta forma conseguimos ir os dois e pagamos menos.

Num dos dias de parque, a diversão (deles... e minha também, vá) centrou-se em atirar a bola a 3 miúdos cheios de energia que estavam empoleirados na casa do parque: atirava a bola ao primeiro e ele atirava para mim, depois repetia a brincadeira com o segundo, por fim com o terceiro. Repetimos isto dezenas de vezes. No final desta brincadeira senti-me com dois dias de trabalho em cima, bolas, preciso de vitaminas para os acompanhar.

Num outro dia, saí às 17h, apanhei-o às 17h15 e "voámos" até à praia, fomos ao encontro da prima, da tia e da avó. Não foi planeado, se tivesse sido não tinha sido tão bom. Vamos repetir. Da próxima vez escolhemos a sexta feira e levamos jantar, se no regresso, o miúdo adormecer no carro, dorme salgado, paciência. Escolho a sexta feira porque não há horários para cumprir no dia seguinte e porque sinto que quando começo a aproveitar o fim de semana à sexta feira ele é muito maior (cheguei a esta "grande" conclusão há algum tempo). Assim sendo, comecemos o fim de semana à sexta feira.

Por falar em fim de semana, gostava muito de ir até Porto Covo, assistir a um concerto com o miúdo no Festival Músicas do Mundo. Gostava de ouvir (ao vivo) um bocadinho disto:


Lembro-me de ir a este festival há uns anos numa roulote que a minha mãe tinha, de fazer as refeições ao ar livre e de tomar banho (com bikini vestido, não exageremos) nas torneiras de jardim/rega. Hoje, com o miúdo a reboque, queria tanto ter uma auto caravana. Não só para ir a este festival, mas para poder passar fins de semana fora todas as semanas. Isto não é propriamente um desejo de fim de semana, mas sim do mês/do semestre/do ano/por este andar, da década.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

"Filmateatro" e o Plano Nacional de Cinema

Lembro-me de ter realizado um trabalho extra de Expressão Dramática. Ao reler o projeto, efetuo alterações mentalmente, defino os seguintes objetivos:


- inventar ou contar uma história,
- representar a história inventada ou contada,
- realizar o cenário, 
- definir e desenvolver o guarda roupa e a caracterização das personagens,
- entrevistar os alunos durante a execução do projeto,
- filmar as diferentes fases do projeto e a representação;
- visionar o filme final;
- Avaliar o projeto (em conjunto).

Na altura, houve uma preocupação clara durante todo o projeto: independentemente do número de alunos que integrasse a representação propriamente dita, era fundamental que todos sentissem que tinham um papel importante no produto final; que todos interiorizassem que sem a sua participação o resultado não seria o mesmo; que todos se considerassem protagonistas na função que desempenhavam; que todos participassem nas tomadas de decisão. Uns ficaram responsáveis por filmar, outros por entrevistar, outros por realizar o cenário e por aí adiante.
Na altura defini que a atividade seria para alunos do 4º ano do 1º ciclo do ensino básico e que a professora já teria experimentado todas as tarefas, individualmente, em anos anteriores - a professora acompanhava a maioria dos alunos desde o 1º ano. Hoje acrescentaria que o grupo estava habituado a definir e distribuir tarefas por todos em diferentes contextos; que o projeto tinha nascido a partir de uma discussão - teatro Vs cinema; que os alunos já tinham trabalhado em pequenos grupos para um projeto final de grande grupo.
Neste projeto, para além da Expressão Dramática seriam trabalhadas diversas áreas, tais como a Língua Portuguesa, Expressão Plástica, Tecnologias de Informação, entre outras. O produto final não seria a dramatização, mas sim a apresentação de como tudo foi feito. Daí a importância dada à área da entrevista e da da filmagem.
Foi um trabalho realizado no 1º semestre do 1º ano da licenciatura. Terá certamente várias lacunas, mas ao relê-lo continuo a identificar várias áreas de interesse. Até podem existir alunos que adoram a área da dramatização/da representação, já outros não se sentirão à vontade nessa área, preferirão outras. Um projeto multidisciplinar permite a participação de todos, tendo em conta os interesses de cada um. E se avaliarmos bem, a maioria das áreas podem ser transversais e integrar muitos dos objetivos definidos. O exemplo da Língua Portuguesa é flagrante, não está presente apenas na criação da história: está na representação;  está no planeamento da realização do cenário; está na descrição das personagens; está nas entrevistas; está nas instruções dadas durante as filmagens e nos objetivos definidos para as mesmas...
Acho que seria muito importante, na área da educação, deixarmos de nos focar tanto no produto final e passarmos a valorizar todo o processo. Neste caso, a representação final (se houvesse lugar para ela) até poderia correr muito mal, no entanto com o registo em filme (documentário) de como tudo foi criado o foco mudaria.

Chamei Filmateatro a este projeto. Soube recentemente, através de um grupo de facebook, que para além do Plano Nacional de Leitura, existe um Plano Nacional de Cinema. Bem-vindo sejas, que promovas a aproximação das crianças e dos jovens ao mundo do cinema que pode ser tão rico. A simples experiência de se ver uma animação e de se discutir a mensagem, a interpretação, a qualidade das imagens, a história ou as personagens pode ser, por si só, muito rica.

Na escola que o meu filho frequenta, entre os dias de banhos de piscina, os dias de guerra com pistolas de água, os dias de festa, os dias de culinária, os dias de pinturas e os dias de passeios, contemplados nas atividades de Verão, também há os dias de cinema (um filme projetado na parede do ginásio da escola), com pipocas e tudo.
E eu, com o meu lado crítico muito apurado, pergunto-me porque é que não se mantém este formato de atividades de Verão, com ambientes mais descontraídos (não é que nos restantes meses seja demasiado formal), com trabalhos mais improvisados do que planeados (não estou a descartar o planeamento, nada disso) durante todo o ano. E em todas as escolas.

Sugestão: Estou a pensar seriamente passar o telemóvel ou a máquina para as mãos do miúdo para ele filmar um dos nossos passeios. Se ele gostar, repetimos. Vou guardar o(s) registo(s) e vou chamar-lhe(s) "O mundo pelos teus olhos". Aproveitando os dias de cinema na escola, acho que chegou a hora de irmos ao cinema pela primeira vez.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Palco Vs Arraial

Na escola que o meu filho frequentou de Setembro de 2016 a Abril de 2017 houve actuações na festa de Natal. Na escola que o meu filho frequenta atualmente não houve actuçaões na festa de final de ano, houve um Arraial inspirado nos costumes e tradições da terra onde vivemos, com gente vestida a rigor (opcional), com jogos tradicionais, com bancas de atividades (pintar um t-shirt, por exemplo), com rancho, com comes e bebes, com o parque da escola à disposição de todos. Assim sendo, sinto-me à vontade para falar destas duas experiências.
Em relação à actuação na festa de Natal, estive numa das primeiras filas (não, não comprei bilhete; sei que em algumas escolas se vendem bilhetes, mas não foi o caso) com o telemóvel na mão à espera que chegasse a vez da minha criança atuar. Um orgulho parvo, mas legítimo, ao ver o meu miúdo em cima do palco com os trajes (simples e giros) feitos pelas educadoras. Cantaram uma versão Brasileira da música que andaram a ensaiar semanas antes da festa, uma vez que a original desapareceu da Pen. Raio das tecnologias, quando decidem trocar-nos as voltas não há grande coisa a fazer. Não me pareceu que os miúdos sentissem algum tipo de pressão por estarem em cima do palco. O que me pareceu foi que o espectáculo acabou por ser uma grande seca para eles (e para nós): a espera dele para subir ao palco e a minha espera para o ver; ver todas as atuações sentado; o silêncio imposto que por vezes não se cumpria... Enfim, não saí assim que o miúdo terminou a atuação por vergonha, mas tive vontade. Os miúdos não gostam de estar tanto tempo sentados e quietos. E os pais, por vezes, também não.

Imagem retirada daqui 

No Arraial, pediram-nos para irmos vestidos a rigor ou, pelo menos, levarmos um acessório alusivo ao tema. Não houve atuações. Eu, que até gosto de passar despercebida, esforcei-me para irmos vestidos a rigor da cabeça aos pés: eu, o pai, o miúdo e a prima. A miúda estava feliz da vida por vestir uma saia com roda: rodopiou, rodopiou e interpretou o papel de forma exemplar. O miúdo pelo simples facto de ter uns suspensórios estava feliz da vida, não por ir vestido a rigor, mas porque associou aquele acessório ao porquinho mais velho (já cá faltavam os porcos). Eu, por incrível que pareça, até um lenço na cabeça levei (claro que tive de pedir à educadora do miúdo para mo pôr). O pai alinhou sem resistência e vestiu um fato a condizer. Eles brincaram. Participámos nos jogos que quisemos. Assistimos à atuação do rancho. Comemos e bebemos. E eles brincaram novamente até se cansarem. Preferimos o Arraial, é mais o nosso estilo.

 Imagem retirada daqui

Não quero desvalorizar o palco, até porque o considero muito importante. No entanto o formato de comemoração centrada em atuações nem sempre resulta, principalmente para as faixas etárias mais baixas.
Considero ainda que a pressão, por vezes, imposta (não foi o caso, foram atuações muito simples) é completamente desadequada neste contexto. É suposto que estas comemorações sejam momentos de festejo e de diversão, não de castigo. Os miúdos não fizeram mal a ninguém. E os pais também não.
Por fim, o formato Arraial promove a aproximação dos pais à escola e possibilita um maior convívio entre pais e a comunidade escolar. No formato das atuações não tive oportunidade de falar com outros pais nem com a as educadoras, por exemplo. Acho que o Arraial (quem diz Arraial, diz piquenique) é mais centrado na interação do que na apresentação/exposição do que se conseguiu, ou não, fazer.
Pela minha experiência, neste contexto, ganha o Arraial. O palco (em exclusivo) fica reservado para outras andanças. 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Grandes livros para pequenos leitores #26 - Papá, por favor, apanha-me a lua

Histórias que relatam momentos felizes entre pai e filha ou que narram pedaços de vida de um pai dedicados a uma filha, sensibilizam-me - deve ser o "fantasma" de nunca me ter sentido a menina do papá, ou melhor, deve ser o facto (real e não fantasmagórico) de nunca ter sido a menina do papá. Esta história é um desses exemplos. Mais um livro que requisitámos na Biblioteca.
A Mónica quer a lua e pede ao pai que a apanhe. Tal como muitas outras crianças, a Mónica quer coisas inatingíveis. Mas será a lua uma dessas coisas?

Uma coisa não podemos negar: o pai tenta apanhar-lhe a lua.


E esforça-se.


Através do seu esforço, descobrimos que a lua não tem sempre o mesmo tamanho nem o mesmo formato.
Por vezes fica mais pequena...


Outras vezes, cresce...



Em contexto escolar (ou familiar), quando um educador ou professor quiser falar do amor que os pais sentem pelos filhos ou quando quiser falar das coisas que um pai é capaz de fazer pelos filhos, pode aproveitar esta história. Também pode aproveitá-la para falar de como devemos lutar para alcançar o que queremos.  E, claro, através dela pode falar das fases da lua, pode sugerir a construção da lua em 3D nas suas diferentes fases, pode lançar a discussão sobre as mudanças observadas, pode incentivar as crianças a observar a realidade da lua todas as noites durante um determinado período de tempo.

É um livro de Eric Carle, da editora Kalandraka. Adorei as imagens, o texto e a mensagem.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Adeus meu querido mês de Junho de 2017, adeus 1º semestre de 2017

Tinhas tudo para ser um bom mês, mas chegaste-me cansado, como se estivesses a contradizer-te desde o início. E assim foi durante os 30 dias que te completaram.
Foste um mês agridoce no sentido mais puro que consigo imaginar: felicidade extrema e tristeza profunda;  verão antes de o ser a contrastar com ventos e tempestades; dias quentes e noites frias; dias felizes de praia e dias de campo debaixo de chuva; boas notícias e más notícias; certezas e dúvidas; querer e não querer; querer ficar e querer partir; querer continuar e querer recomeçar; bem estar e mau estar; intenções que se cumpriram e desejos que ficaram por realizar; gargalhadas espontâneas e lágrimas atrevidas; ira e serenidade; excitação e apatia; avançar e recuar; o planeamento e o acaso; saber onde pertenço e sentir que não pertenço a lado nenhum; ser a mais doce e ser a mais amarga; o peso e a leveza; o amor e o ódio; a certeza de que tudo pode correr bem e a consciência de que tudo pode correr mal; a fé e a descrença; acontecer o melhor e acontecer o pior.

Ver tudo com nitidez

Ver tudo desfocado


Foste, claramente, um mês cheio de sensações e acontecimentos antagónicos. E eu estou aqui na corda bamba sem saber como sair do 1º e entrar no 2º semestre de 2017 sem me estatelar lá em baixo. Até o facto de me despedir de um mês no seu último dia é uma contradição, uma vez que o costumo fazer já no mês seguinte. Afinal, quais são as mãos que comandam isto tudo? Por vezes, parecemos marionetas.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Barómetro de crescimento #11 - Eu continuo a aproveitá-lo, mas acho que o tempo está mesmo a passar mais depressa / À conversa com o meu filho #16 - A semente e outras coisas

Quando o Índio Pirata fez dois anos, não senti pena. Aproveitei-o bem, vivi intensamente as suas primeiras descobertas, acompanhei-o em muitas conquistas, partilhámos aprendizagens. Hoje, talvez pela autonomia que já conquistou, por eu estar mais sobrecarregada ou porque a vida é simplesmente assim, dou por mim apreensiva ao vê-lo e ao escutá-lo. Hoje, quando o pai me ligou para eu lhe desejar um bom dia (ele estava a dormir quando saí de casa), mal reconheci a sua voz. De repente, pareceu-me que passaram meses desde a última vez que falámos ao telefone, em que do lado de lá ouvia uma voz de bebé a dramatizar porque acordou e não me viu. Hoje, a voz dele estava firme, colocou questões objetivas, sem dramas. Há situações em que me mantenho no diálogo com ele, mas ao mesmo tempo consigo "afastar-me" e observar, apenas observar, como se estivesse ausente, como se fosse apenas espetadora. É uma sensação estranha, deve ser isto que origina a célebre frase "o tempo voa: quando dás por ti, ele já está na escola, no 2º ciclo, no ensino secundário e por aí adiante...". Eu continuo a aproveitá-lo, mas acho que o tempo está mesmo a passar mais depressa.
Tenho a sensação de que comecei o treino para deixar de ser a atriz principal, passar a ser atriz secundária e por fim ficar com o papel de espetadora. Tive muitas dores de crescimento... Parece-me que, agora, vão começar as dores do crescimento dele. Não estava preparada para isto.

Não faças essa cara, lembras-te quando me dizes que queres ser grande? Vais ver que depois disto vais crescer num instante. A maneira como eu vou lidar com isso é que vai ser mais difícil (vamos fazer de conta que o miúdo crescido da imagem sou eu, a mãe crescida).

Imagem retirada daqui

Algumas das suas célebres frases e conflitos internos: 
- Quando eu for grande tu vais ser pequena.
- Quando eu for maior que a prima...
- Quando eu for grande também posso beber vinho... - vai com calma, menino. 
- Quando é que eu vou ser do teu tamanho. 
- Eu sou pequeninoooo - com ar dramático e quando lhe convém. 
...
No outro dia perguntou-me quando é que eu ia para a barriga dele (é justo, já que esteve na minha). E quando é que tinha estado na barriga do pai (isso ainda seria mais justo, dado o número elevado de vezes que vomitei, dava-me jeito ter dividido as coisas). Por fim, perguntou-me como é que tinha ido parar à minha barriga. A semente??? Sim, expliquei-lhe como é que acontece de forma sucinta, parecia à minha irmã a debitar informação - rápido - e baixinho, com esperança que ele não percebesse. Mas ele ouviu. E percebeu. E agora repete em voz alta e ri. Está crescido, este meu Índio. E também está na idade da parvoeira: xixi, cocó, pila, pipi - diz e ri, ri muito.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Pesadelo no mês de Junho

Junho, que estavas a ser tão perfeito, não era suposto que se vivesse este inferno nos teus dias - nem em nenhuns outros.

Não soube da tragédia quando o mundo já observava, atónito, o terror impresso nas imagens; quando já se organizavam grupos de apoio; quando alguns já reagiam e intervinham; quando muitos já lamentavam as perdas irreversíveis; quando alguns bombeiros já mostravam sinais de exaustão física e psicológica - se as imagens nos ferem a alma, a presença naquele cenário deve esmagar qualquer um, por mais forte que seja ou por mais preparado que esteja; quando muitos já não tinham lágrimas porque o que sobrou não compensa o que se perdeu; quando muitos se afligiam com a falta de respostas; quando muitos procuravam por algo que já estava perdido para sempre; quando o sofrimento já estava instalado no coração de Portugal e do mundo; quando muitos já viviam um luto pesado e asfixiante. Só soube da tragédia no Domingo à hora de almoço. 
Há dias em que me isolo do mundo (não do meu nem do mundo dos meus) e isso inclui, naturalmente, os meios de comunicação televisão e Internet. Este fim de semana foi um desses casos e eu vivi na ignorância durante algumas horas. Entrei na serra da Arrábida Domingo de manhã (às 8 da manhã) e, ainda sem saber da tragédia, pensei que um incêndio naquela zona seria devastador, tal como foi há uns anos atrás. Afastei o pensamento, como se desta forma pudesse evitar que algo acontecesse. Segui com o meu filho para a praia. Mergulhámos e brincámos. Às 10:30 saímos da praia e regressámos ao trilho de alcatrão da serra. Já em casa, depois de uma sesta, é que soube o que estava a acontecer, num outro trilho, num outro distrito, numa outra realidade, numa nuvem de profunda tristeza. Só nessa altura é que me caíram as primeiras lágrimas ao ver alguns relatos. Só aí é que me lembrei que alguém que me é relativamente próximo estava a passar o fim de semana prolongado numa terra ali perto - numa altura destas todos nos são relativamente próximos. Ligo uma vez e não atende. Ligo outra e não atende. Mas o telemóvel está ligado, o que é um bom indício. Lá me retribuiu a chamada e confirmou-me que sim: que a sua casa é ali perto, que viu o fogo ao longe, que sentiu o peso das cinzas, que teve medo, que não regressou no sábado à noite porque não sabia por que estrada regressar - ninguém lho sabia dizer, que regressou mais cedo a casa (já no domingo) por um percurso diferente do habitual - a "estrada da morte" seria a estrada por onde regressaria se este pesadelo não tivesse acontecido. Mas aconteceu. E sentimo-nos todos pequenos e tristes perante tamanha tragédia e, ao mesmo tempo, aliviados por não estarmos lá. Não estamos lá, mas estão lá gentes nossas, terras nossas, património nosso, natureza nossa. Natureza essa que se virou contra nós... Ou será que não? Talvez a natureza nos tenha falhado (não é a única culpada), mas nós também já lhe falhámos muito. E tomamos consciência de que não estamos a viver isto como devíamos, não estamos a aproveitar a viagem da melhor maneira, não estamos a acrescentar o que devia ser acrescentado...
Contrariando muitos dos que são os meus desejos para Junho, desejo agora que chova muito. Que chova mesmo muito. Vá lá natureza, eu sei que já falhámos muito contigo, mas não nos falhes agora!

Imagem retirada daqui

Pedrogão Grande, faz jus ao nome que carregas e renasce das cinzas que acabaste de herdar. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os dias das nossas (mini) férias

Tiro dois dias de férias para estar com ele enquanto os amigos da escola vão para a praia, adicionamos os dois dias do fim de semana e ficamos com quatro dias para nós. Ele não vê a diversão dos amigos através do facebook, não sente pena, não lamenta não ter ido. Eu sinto pena por ele não ter ido. Sei que respeitei a minha vontade e o que sinto em relação às idas à praia com a escola, mas a educadora, com o seu jeito de fazer coisas bonitas, provoca-me este sentimento (sei que só aparecem as imagens bonitas no facebook, pensando bem, agora que já passou, acho que fiz o correcto, pelo menos para mim e por agora).
Vamos à praia, saltamos nas ondas, atiramos pedras, ele gosta tanto de atirar pedras ao mar. Vamos a uma sardinhada nas festas da nossa terra. Andamos nos carrosséis. Vamos ao jardim da terra onde vive a minha avó. Faço sopa e ele diz que está gnífica, o que ele quer dizer é que está magnifica (só escrevo isto porque a minha vocação para a cozinha é igual à minha vocação para Física Quântica... pensando bem a Física ganha por alguns pontos). Comemos tomate e alface com sabor de antigamente porque descobrimos uma mercearia nova que vende produtos biológicos, que tem um espaço com brinquedos, que tem uma pessoa simpática e serena a atender, daquelas que nos fazem acalmar só de as ouvirmos falar. Ele é capaz de ficar horas a brincar na "mercearia dos brinquedos" e é capaz de fazer birra porque quer ir à mercearia. Consigo tirar umas horas só para mim num sábado de manhã. Chateio-me com o pai do miúdo. Eu e o miúdo vamos à praia novamente. Descobrimos mais um jardim. Almoçamos fora, os três, num dia de calor e fazemos uma sesta de 3 horas. Terminamos o domingo nos carrósseis.
Às vezes consigo ser espectadora das nossas conversas, dos nossos diálogos sérios e consigo ver como ele está crescido. O miúdo é gozão e brincalhão, tal como me diz a educadora. E lembro-me, agora, que na anterior escola, de acordo com a educadora, ele era só introvertido. Nesta é brincalhão. Talvez seja mais feliz. Agora só isso é que (me) importa.
Segunda feira estou de férias, mas vou deixá-lo na escola. Sinto culpa, mas tenho coisas para resolver e limpezas para fazer. Sinto que tenho de aprender a não sentir esta culpa. Corre tudo bem. Vou buscá-lo e vamos ao parque.

Eu não acho que a escola que ele frequenta seja perfeita (não as há, porque o conceito de perfeição é subjetivo), mas que tem muitas coisas boas e especiais, tem. E com uma mudança tão recente, nós decidimos que não o inscrevemos no Jardim de Infância público - uma velha luta (na minha cabeça) entre escola pública e escola privada. Mas, confesso, temo por decisões futuras que tenhamos de tomar: a maioria das pessoas que conhecemos com filhos a frequentar o Jardim de Infância que ele frequenta não tira de lá os filhos no 1º ciclo. Deve ser porque a escola é boa... Claro que é. O único problema é a mensalidade que é mais de metade do meu ordenado. Se eu reduzisse o meu horário de trabalho, ganharia menos consequentemente, mas podia inscrevê-lo na escola pública, podia ir buscá-lo às 15h00 e ainda ficava a ganhar em "remuneração" e em tempo com ele (pena que a redução de horário não depende apenas de mim)... Mas depois existem os dias em que tenho de sair mais tarde ou levá-lo mais cedo porque o pai não o pode levar, existem as interrupções letivas e decidimos que vamos mantê-lo onde está .

Atirador de pedras no Portinho da Arrábida, a serra que lhe apresentei assim que saiu da maternidade.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Grandes livros para pequenos leitores #25 - Olá, eu sou o João - Um mundo só meu

"Às vezes pareço estar dentro de um mundo só, onde as portas e as janelas estão fechadas. Às vezes  é bem verdade. É assim que me defendo do excesso de sensações que o mundo me transmite. É como se ouvisse tudo demasiado alto, como se as cores fossem todas berrantes e me ferissem o olhar, como se, ao invés de ouvir palavras, ouvisse apenas a articulação agressiva das sílabas, sem sentido. Protejo-me deste excesso fazendo coisas repetitivas que me sossegam e, como devem imaginar, não gosto que me interrompam na minha defesa. 
Queria muito conseguir sair completamente deste escafandro onde me sinto confortável, porque, a espaços, encontro pontos de comunhão com as brincadeiras que vocês têm e sinto-me, mesmo que por pouco tempo, feliz. Ajudem-me a percorrer o caminho de mim a vocês, pouco a pouco e tanto quanto eu consiga. A vossa força pode ser a minha âncora para não me perder."

Texto de Valério Romão, escrito na contracapa do livro "Olá, eu sou o João - Um mundo só meu", com texto de Alice Vieira, com ilustrações de Paulo Guerreiro. Um livro tão cheio de simplicidade, tão cheio de sentimentos, tão cheio de preocupação pelo outro. Um livro tão simples e tão cheio. Um livro especial da coleção "Meninos Especiais".

Nesta história o João encontra um ponto de comunhão com a Isabel numa brincadeira tão simples e tão adorada por todos: saltar nas poças de água.

E nós, saberemos ser humildes o suficiente para pedir ajuda a percorrer o caminho de nós até ele? Sim, é quase certo que ainda não aprendemos a fazê-lo. Quereremos nós percorrer esse caminho? Estaremos conscientes da riqueza que esse percurso nos dará?

Para conhecer mais livros desta coleção: Pais em rede.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

À conversa com o meu filho #15 - Os 3 porquinhos, as 3 primas dos 3 porquinhos, o lobo bom Vs lobo mau e... alimentação

A propósito deste texto, perguntei-lhe o que é que ele quer ser quando for grande. No alto dos seus 3 anos, ele respondeu-me que quer ser o porquinho mais velho.
Acredito mesmo que hoje é esse o seu desejo: no parque incita os miúdos a brincar aos 3 porquinhos e pede-me para ser o lobo mau; chama casa de tijolos a qualquer casinha de parque que encontre nos nossos passeios; gosta de vestir jardineiras porque o porquinho mais velho veste jardineiras; pede-me 3 pratos para brincar, digo que lhe empresto 2, diz-me que precisa de 3 para dar comida aos 3 porquinhos; fecha as portas do quarto e da sala e diz que são as casas dos irmãos...
Perante a sua afirmação em querer ser o porquinho mais velho quando for grande, posso tirar as minhas conclusões: terei mais dois filhos (não porcos) e ele será, naturalmente, o mais velho; será pintor, construtor, carpinteiro, fiscal de obras ou qualquer coisa relacionada com a construção de casas de tijolos; terá medo do lobo mau (agora tem um bocadinho, espero que daqui a um tempo isto lhe passe); será responsável; preferirá o trabalho à brincadeira (equilibra as coisas, está bem filho?).

Dada a sua paixão declarada pelos 3 porquinhos, levei-o a ver uma peça de teatro dos ditos. Seria o culminar da história tantas vezes contada, seria o encerramento das 1001 versões ouvidas. Só que não, a peça de teatro não relatou nenhuma das versões já conhecidas, na verdade a história foi outra: a das 3 porquinhas, primas dos 3 porquinhos; com um lobo bom a querer ser o lobo mau; com um lobo forte; com a casa de tijolos a ir pelos ares; e no final, uma banda constituída pelas 3 porquinhas, primas dos 3 porquinhos, e por um lobo bom. Ou seja, mais uma panóplia de possibilidades à disposição da imaginação do miúdo: venham de lá os tios dos 3 porquinhos, os avós dos 3 porquinhos, os educadores dos 3 porquinhos, os filhos dos 3 porquinhos e por aí adiante... Vou ter de aprender a viver com esta vara. E lembrei-me agora que, a propósito desta sua paixão, posso falar-lhe de substantivos colectivos (de forma informal): vara, alcateia, rebanho (a propósito da história do Pedro e o lobo), etc. E podemos desenhar porcos, ovelhas e/ou lobos, procurando, ou não, inspiração nos livros que temos. E podemos ir para a rua fotografar porcos e/ou ovelhas (costumamos passar por alguns terrenos que têm porcos, ovelhas e outras espécies), podemos imprimir as fotografias e colá-las no livro da vida (que ainda não iniciámos).

E no final desta conversa toda, digam-me lá, como é que um dia vou explicar ao miúdo que se come carne de porco (ele come muito muito raramente). E a propósito disto só me vem à ideia este vídeo:

 

Só sei que já estive mais longe de me tornar "vegetariana" ou, pelo menos, reduzir muito o consumo de carne. Já o tinha escrito aqui.

terça-feira, 6 de junho de 2017

À conversa com o meu filho #14 - questões de género / Grandes livros para pequenos leitores #24 - Será que a Joaninha tem pilinha?

Ao ver a publicidade de um brinquedo na televisão afirmou com convicção: isto é para meninos.
- Para meninos!? Porquê? - perguntei.
- Também pode ser para meninas. - afirmei.

Quis aprofundar a questão: por que raio estaria ele a dizer-me que aquele brinquedo era para meninos?
- Porque é que achas que aquele brinquedo é para meninos, filho?- questionei.
- Porque só aparecem meninos. - respondeu.

É simples, bolas! O que é que eu não percebi?

Numa Unidade Curricular sobre Igualdade de Géneros discutiu-se bastante a existência de brinquedos que são, muitas vezes, direccionados  para meninas ou para meninos consoante a publicidade que lhes é feita (a influência/o poder das imagens). Mas não estava à espera que ele verbalizasse de forma tão directa e tão simples esta problemática - sim é uma problemática. É muito simples: se colocam apenas meninos a brincar com carros nos anúncios da televisão, na publicidade que fazem nos folhetos, nos livros infantis, as crianças são bem capazes de interiorizar que brincar com carros é uma coisa de meninos. Eu não expliquei ao miúdo que o carro é um brinquedo de meninos, ele chegou a essa conclusão pela sua experiência; verbalizou-o porque viu a publicidade com atenção.
Apesar de não termos uma cozinha de brincar cá em casa, ele sempre que vê um brinquedo do género demonstra interesse; ele brinca com caixas de plástico e colheres; ele faz pão em cima da nossa mesa da cozinha. No outro dia, num dos piqueniques que fizemos, queria trazer um bebé e respectiva cama de uma amiga... No entanto, a educadora diz que na sala, com todas as opções disponíveis (bebés, cozinha, tábua de passar a ferro, carros, comboios, construções, etc.) ele prefere sempre os carros e os legos.
Este fim de semana ofereceram-lhe roupa e o miúdo resolveu dizer que duas das camisolas são de menina, uma porque é cor de rosa, a outra porque tem flores...

Que influência terei eu nas suas preferências?
Incentivo-o a brincar com o que ele quer desde sempre, ou melhor, nunca o proibi de brincar com nada (excepto com detergentes, objetos perigosos...), mas a verdade é que até à data não lhe comprei nenhum nenuco nem nenhuma cozinha, apesar de ter andado a namorar uma há um ano atrás (era linda, mas cara).
Na minha opinião, as imagens transmitidas pela publicidade podem influenciar as nossas preferências e levar a uma classificação de brinquedos de acordo com o género, mas as nossas escolhas (minhas, neste caso) também. Apesar de achar que cada um de nós tem as suas preferências e que algumas delas são independentes de factores externos, o facto de eu não ter comprado determinado tipo de brinquedos pode influenciar as suas escolhas/preferências. No entanto, não sinto culpa em relação a este assunto, até porque da mesma maneira que não lhe comprei um nenuco, também não lhe comprei nenhum brinquedo da patrulha pata, apesar de ele gostar muito. Priorizei comprar outros brinquedos em detrimento destes, porque ele demonstrou gostar mais deles. Já o pai, acho que por nostalgia em recordar os seus tempos de criança, comprou-lhe uma coleção de carros da majorette.
Nos últimos dias, começou a dizer que uma das maracas que tem é um bebé, chamou-lhe Martim Joaquim (coitado do bebé), passados uns dias juntou-lhe o Pedrito Coelho (batizado por mim, quando ele era bebé). Agora diz que tem dois filhos. Entretanto, trocou-lhes os nomes: a maraca passou a ser o Rafa, ou seja o Rafael, o Pedrito Coelho passou a ser o Martim Joaquim (falta de sorte a dele). Diz que o pai é o avô dos miúdos. Pergunto-lhe se sou a avó. Ele responde que não, que eu sou a mãe. Agora sim, acho que chegou a hora de lhe comprar um boneco.


Há alguns anos, em contexto escolar, durante o recreio observámos que um grupo de meninos considerou que jogar à bola era um jogo exclusivo de meninos e por isso impediu que uma colega entrasse no jogo. Considerou-se que era uma problemática interessante para ser trabalhada e discutida em grande grupo. O ponto de partida foi um livro de uma colega nossa: Será que a Joaninha tem pilinha? Um livro da editora Dinalivro, de Thierry Lenain e Delphine Durand.
Nesta história, o Max investiga se a Joaninha tem pilinha. É que apesar de parecer um sem-pilinha, desenha mamutes em vez de flores, joga à bola, vence lutas... como se fosse um com-pilinha.


Iniciou-se um projeto com a leitura deste livro. Promoveu-se um debate sobre o problema identificado, em que cada criança teve oportunidade de dar a sua opinião sobre o sucedido: algumas crianças apresentaram exemplos de brincadeiras "destinadas" a meninos e outras "destinadas" a meninas, de acordo com as suas perceções; algumas crianças discordaram e comunicaram ao grupo que gostam de brincadeiras que, muitas vezes, são consideradas brincadeiras "do sexo oposto"; concluiu-se que todos podem brincar ao que quiserem. Realizaram-se vários jogos em que todos puderam participar. Por fim, foram preparadas dramatizações realizadas em pequenos grupos: cada grupo teve a liberdade de inventar a sua pequena história; cada grupo optou por uma técnica para a dramatização da sua história: teatro de actores, teatro de fantoches, teatro de sombras e teatro de objectos.
Porque é que eu não posso jogar o teu jogo? Porque sou menina? - foi o título do projeto. Mas a última pergunta também podia ser "Porque sou menino?", depende apenas da situação.