sexta-feira, 20 de outubro de 2017

À conversa com o meu filho #19 - Mãe, arranjei-te uma semente...

"De onde vêm os bebés" já foi tema de conversa lá em casa. Não falei da cegonha e acabei por ser directa. Referi este assunto aqui e aqui.

A semana passada surgiu a seguinte conversa à saída da escola:

- Mãe tenho uma semente para pores no teu pipi para ti. - disse-me.
- O pai vai pôr uma semente no pipi na barriga da mãe? - retorqui, julgando ter percebido mal a afirmação.
- Não mãe, eu já tenho a semente, apanhei-a na escola, está dentro da mochila. 
- E o que é que faço com a semente. - pergunta estúpida, eu sei.
- Pões no pipi. E passado muito tempo, nasce um bebé da tua barriga. - esclareceu-me o miúdo com os seus 4 anos.

Há 2 semanas fez um desenho na escola com os dois irmãos, continua a dizer que não tem irmãos há muito tempo. No Domingo, no quadro de ardósia desenhou-nos(eu, ele e o pai) e... 13 irmãos.

E eu temo ter decidido no passado dia 15 de Outubro (logo neste dia, bolas) que não terei mais filhos. Não que não queira, mas porque não há condições (diversas) para tal. Tenho pena, filho.
Acho que não seria capaz de ter mais um filho só por mo pedires, mas se pudesse e se sentisse que podia tê-lo, teria. E ficaria feliz por ti e por mim. Por nós.
Posso dizer-te que tens uma prima, posso dizer-te que acredito (desejo muito) que podem vir a ser como irmãos, posso dizer-te que ter irmãos é muito bom ou que ter irmãos não é assim tão extraordinário. Se me restringir à minha experiência posso dizer-te duas coisas: tenho uma irmã pela qual sinto um amor imenso especial; tenho um irmão que não te conhece... Uma coisa eu sei, acredito na relação que tens com a prima que tanto adoras.

Fonte desconhecida
Ela é mais alta do que tu (também é 3 anos mais velha), mas tu dizes que vais ser maior do que ela... Vejo os dois com a mesma grandeza! Que sejam primos-irmãos, meus amores, pode ser?

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Quando for grande quero desenhar assim...

Gostava de ter vocação para o desenho, para as artes manuais em gerais. Gostava mesmo. Mas, como uma vez alguém escreveu (não me lembro quem, mas já vi isto escrito em algum lugar), tenho umas mãos que parecem uns pés.
O meu filho de 4 anos desenha monstros, praias e pedregulhos em série. Qualquer conjunto de curvas e contracurvas aleatórias (ou não) desenhado por um lápis é nomeado de praia, monstro, pedregulho ou qualquer coisa do género. Quando orientado, lá faz qualquer coisa menos abstrata, mas temo pelo peso da herança genética. Será que lhe proporcionei poucas oportunidades para desenhar e pintar? - questiono. Acho que sim, acho que podia ter feito mais.
Está numa fase em que quer pintar, desenhar, cortar, (tentar) escrever o nome. Eu vou atrás da vontade dele e instigo-o. Ele mostra-me as pinturas e os desenhos que faz orgulhoso à espera da minha aprovação, mas já não digo que está muito bonito por tudo e por nada: digo-lhe que reparei na mistura de cores, pergunto-lhe porque só utilizou determinada cor, peço-lhe para me explicar o que desenhou, faço uma ou outra sugestão, incito-o a acrescentar algo, mas não elogio por elogiar. Elogio o esforço e alguns resultados finais. Quero que ele desenhe por gosto, por um objectivo pessoal, que se esforce para conseguir desenhar o que quer, sem necessitar de aprovação externa constante. Se não ficar bem à primeira, fica à segunda ou à terceira - se sair à mãe é que é mais complicado, não sei se irá lá à terceira, mas....

Eu eu? Eu não sei se já sou crescida o suficiente para dar como um dado adquirido a minha (falta de) vocação para as artes ou se ainda vou a tempo de melhorar qualquer coisa... Talvez apanhe o comboio do miúdo e deite mãos à arte. Consciente de que vou fazer isto por mim, muito possivelmente sem receber qualquer elogio. Mas se me divertir com isso, valerá a pena.

Esta ilustração foi realizada pelo autor do livro "O mundo ao contrário". Não sei se foi realizada a pensar num público alvo, tendo em conta uma faixa etária específica (ou várias), por exemplo... Mas acuso-me já, conheço várias personagens: Popeye, Lucky Luke, Les aventures de Tintin, Snoopy...

Autor: Georg Barber, mais conhecido por ATAK

Gostava de saber conjugar cores de forma harmoniosa, mesmo quando são cores fortes; gostava de ter capacidade de passar para o papel o que a minha mente visualiza; gostava de desenhar um círculo que não parecesse um pentágono ou uma linha reta sem desvios. Basicamente, gostava de ter jeito para isto. E lembro-me agora que quando tirei a licenciatura, quando me dedicava, até conseguia realizar algo com sentido estético, mas também me lembro que tinha mesmo de me esforçar muito. E demorava imenso tempo a realizar os trabalhos. Vou rever o que fiz e analisar o que posso fazer com o miúdo quando ele me convidar a desenhar com ele.
Vou sugerir ao miúdo que feche os olhos, que pense num objecto e que o desenhe no quadro de ardósia. Sem exageros, vou tentar que  miúdo tenha mais jeito do que eu para as artes... Se ele alinhar e gostar, claro. Há sempre a hipótese de o miúdo ter herdado alguma vocação do pai. Ainda tenho esperança.

Mas, por exemplo, isto eu consigo fazer...

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Grandes livros para pequenos leitores #28 - O mundo ao contrário

Filho, este livro foi um dos presentes do teu 4º aniversário e tem esta dedicatória:
"Um dia, inevitavelmente, vais crescer mais. E ainda bem, é esse o percurso natural da vida. Vais perceber por ti que a natureza tem coisas perfeitas (o crescimento de uma criança é uma delas), mas que dela também fazem parte coisas imperfeitas, coisas que estão frequentemente fora do lugar, no lado contrário do que é suposto. Hoje não vou escrever sobre elas. Hoje espero apenas conseguir dar-te as bases para identificares o que está ao contrário; as bases para tentares contrariar o que de errado encontrarás neste nosso mundo; as bases para conseguires agir bem e por bem; as bases para seres e fazeres feliz.
Por agora dedico este livro àquela brincadeira tão nossa de te pegar ao colo, inclinar-te para trás com o apoio dos meus braços e proporcionar-te o mundo ao contrário, o mundo de pernas para o ar. Costumas pedir-me para fazer isto frequentemente. E eu faço-o orgulhosamente, como se fosse uma brincadeira que só nós é que conhecemos - não somos os únicos, mas fingimos que somos.
E agora temos uma outra brincadeira: vamos descobrir o que está ao contrário neste livro? vamos descobrir o que está no sítio errado? o que tem o tamanho errado? vamos tentar colocar as coisas nos sítios certos? Pode ser um passo para perceberes o lado certo e o lado errado das coisas...
Muitos parabéns neste dia tão especial da nossa vida, o dia 27 de Setembro".

Um livro mágico que nos leva a procurar o que está fora do sítio. Um livro com ilustrações extraordinárias que nos leva a refletir sobre o que podíamos ser e sentir se invertêssemos papéis. Um livro muito bem pensado. Um livro de ATAK, da Editora Planeta Tangerina.


A propósito da minha resistência ao circo - já fomos uma vez, mas não tenho vontade de repetir; os avós do miúdo perguntaram-nos há dias se queríamos ir ao circo com ele, a nossa resposta foi imediata e negativa:


Este livro permite-nos colocar no lugar do outro, refletir sobre o que sentiríamos se estivéssemos no lugar do outro, inverter papéis (depois de lermos este livro pela primeira vez, o meu filho fez de conta que era o pai e eu a filha), realizar desenhos e pinturas ao contrário...
Este livro é um álbum ilustrado sem qualquer texto a completá-lo, o que nos permite dar azo à imaginação. Quando chegamos a esta página, podemos completá-la com "e naquele mundo longínquo onde tudo acontecia ao contrário, os animais iam ao circo ver as acrobacias que os homens conseguiam realizar" ou "naquele mundo criado ao contrário os homens faziam a vez dos animais no circo de Natal... será que gostavam?"... O texto que inventamos depende dos objetivos que definimos, da ocasião, das crianças que nos ouvem.

Uma das propostas que integrou as Atividades de Verão na escola do meu filho: crianças deitadas no chão debaixo de uma mesa; folhas de papel brancas coladas na parte de baixo do tampo da mesa; desenhos e pinturas realizadas ao contrário - chamaram-lhes "pinturas do avesso". A postura da criança ao realizar a atividade é contrária à habitual, a perícia manual é trabalhada. Será que foi muito difícil?

 Imagem retirada daqui

Depois, aumentaram o nível de dificuldade: pintaram assim e desenharam com um lápis entre os dedos dos pés:

 Imagem retirada daqui

O mundo ao contrário: um livro com tantas possibilidades educativas. 
Há 2 anos escrevi um texto com este título.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

As férias que eu quero incluir na normalidade dos dias

As férias já lá vão, mas tal como o ano passado foram regeneradoras. Estivemos uma semana sozinhos (os três) e foi perfeito, mesmo contabilizando todas as imperfeições com que nos deparámos: o miúdo com febre na antevéspera da partida, a antibiótico na véspera e com anúncio de mau tempo. Apanhámos mau tempo no dia da chegada e no dia seguinte, dias estes que coincidiram com o início do antibiótico - não nos importámos porque tínhamos indicação para não irmos à praia nestes dias. A partir daí foi sempre bom. Centrámo-nos no facto de termos umas boas férias e conseguimos. Regressámos ao sítio onde já fomos felizes e fomos felizes novamente. As discussões não passaram de simples trocas de ideias. Vivemos aqueles dias sem pressa, tomámos o pequeno almoço devagar, fizemos as refeições sem olhar para o relógio. Abstraímo-nos da internet e da imensidão dos canais de televisão. Soubemos de poucas notícias. Fizemos puzzles, jogámos ao dominó, jogámos à bola e fizemos teatro de fantoches. Encontrámos a água do mar tépida. Reencontrámos o barco queimado e o sítio secreto. Passeámos pela ilha no meio de transporte que escolhemos para estas férias (ele passeou, a nossa função foi mais a de puxar o dito meio de transporte). O miúdo esteve afoito e entrou no mar sem receio. Recuou um pouco quando a prima chegou, talvez porque a viu mergulhar, nadar bem e depressa. Aos poucos voltou ao normal. Ele recebeu uma grande surpresa a meio das férias: a prima. A partir daí as brincadeiras a três passaram a ser, maioritariamente, a dois. Os dois, juntos, andaram de trotinete, brincaram e discutiram, fizeram cabanas na praia, observaram peixes no mar, apanharam berbigão, colecionaram conchas e pedras, dormiram juntos. Deslumbro-me quando os vejo crescer em cumplicidade.
Fui para a Ilha 15 dias a pensar que iria a Lagos, que iria subir ao interior para visitar uma praia fluvial, que daria um pulo até Espanha. Mas, tal como aconteceu o ano passado, não senti qualquer necessidade em sair daquele pedaço de terra. Pelo contrário.
Regressámos à nossa casa e eu não senti a tristeza que senti o ano passado: sei que serei feliz quando regressar. Queremos regressar à Armona no próximo ano e viver a liberdade e a descontração que ela nos proporciona. O miúdo sentiu ambiguidade no regresso: as saudades de casa e o querer viver nas férias.
O regresso à normalidade dos dias fez-me ter (mais) consciência de que vivemos de forma pouco saudável (a todos os níveis). Estou agora a tentar trazer para a realidade dos nossos dias o estado de espírito das férias. Isto tem de ser possível, bolas!
Querida Armona, até para o ano!

A música do regresso:

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

4 anos: como foi e as saudades que eu vou ter... ou as saudades que eu já tenho

Se me pedires uma palavra para descrever o teu 4º ano de vida, eu peço-te 4: amor. fantasia. negociação. superação. 

amor, porque está sempre presente, porque vem antes de tudo o resto, porque é o maior de todos os sentimentos, porque faz parte do que somos enquanto mãe e filho, porque com ele tudo se consegue, porque ao mesmo tempo que está no topo da nossa relação é também a base dela. Porque comecei a amar a ideia de te ter muito antes de te ter. Porque quis o destino que as nossas vidas fossem costuradas a fio de amor: fio forte, inquebrável, invisível, que une dois pedaços de matéria independentes com uma força indestrutível. Incluo no amor a palavra gratidão: obrigada vida por este filho, obrigada filho por este amor, obrigada amor pela oportunidade de te (re)descobrir. 

fantasia, porque foi o ano em que mais fantasiaste, em que mais fantasiamos. Posso até dizer que foste um verdadeiro Peter Pan na sua terra do nunca, nas suas histórias irreais, envolto na sua fantasia. Também foste o porquinho mais velho, personagem de eleição que adotaste e que interpretaste na perfeição. Foste pirata sempre que vestiste o fato de Carnaval ou saíste de casa com o chapéu da caveira, espada na mão e pala no olho. Foste gato das botas quando em pleno mês de Agosto quiseste calçar as botas de borracha. Foste lobo e monstro sempre que nos assustaste. Foste palhaço com as tuas frases cheias de graça e de humor. Foste advogado quando argumentaste com convicção. Foste e és uma fantasia realizada, imaginada nos mais doces e secretos sonhos. 

negociação, porque muito negociámos. Consequentemente discutimos e argumentámos. Muito ensinei e muito aprendi nesta dança de exigir e de ceder, de dar e receber, de pedir e satisfazer, de compreender o que eu quero e de respeitar o que tu queres.

superação, porque não foi um ano fácil. Foi trabalhoso, cansativo, desafiador, mas superado.

Não sei como estabeleci esta mudança de etapa na minha cabeça, mas sinto que é aqui que deixas de ser bebé, pelo menos apenas bebé. Talvez situe esta idade num plano intermédio de bebé-menino, porque o meu coração não consegue ainda aceitar que o bebé que foste fica para trás, nas páginas já escritas, na história já vivida e construída. A história dos teus 4 anos de vida e dos meus 4 anos de mãe fundem-se e eu agradeço esta fusão. Desejo que, apesar dos pontos e das virgulas da nossa história, o texto seja fácil de ler, de viver, de entender. E que provoque em nós e naqueles que nos rodeiam um sorriso aberto e sincero. Quero viver bem e quero que vivas bem. Quero que gargalhemos juntos muitas vezes.
Haverão capítulos em que terei uma participação regular, em que a (minha) assiduidade importa, na medida em que farei falta. Outros em que deixarei os papéis de maior relevo para te dar espaço e oportunidade de construíres a tua personagem e a tua história (a verdade é que já estás a construí-las). Outros ainda em que serei apenas leitora. Estará tudo bem, tudo tem o seu tempo, o seu ritmo, o seu espaço. Independentemente do papel que eu tenha nos diferentes capítulos, lembra-te só que o amor que por ti sinto é crescente. Não consigo quantificar esse crescimento, mas sei que quanto maior for a história, mais te amarei. Que ela seja longa, queremos longevidade.
Passados 4 anos não consigo deixar de te olhar em silêncio e sorrir como de uma aparição divina se tratasse, com aquele encanto ingénuo e infantil que as surpresas boas nos trazem. A verdade é que ser tua mãe tem sido um privilégio. Foste, sem dúvida alguma, a melhor surpresa, a surpresa da minha vida, o amor de uma vida toda, apesar dos 37 anos que nos separam.
Cativaste-me desde o primeiro segundo, meu amor: a fazer-me sorrir desde as 16h29m do dia 27 de Setembro de 2013. E todos os dias me conquistas mais. Desde 2013: ano em que engravidei, ano em que me descobri grávida, ano em que te descobri menino, ano em que me nasceste e que nasceste para o mundo. Tudo em 2013.

Feliz aniversário, meu menino de amor, traquina e explorador.  Desejo com o coração que tenhas um feliz 5º ano de vida. Todos os anos peço o mesmo, adotei esta frase como sendo minha, mesmo não sendo: que tenhas um destino bonito.

Coisas que te escrevi nos 2º e 3º aniversários:
- A carta que te escrevi por ocasião do teu 3º aniversário.
- As cartas que te escrevi por ocasião do teu 2º aniversário: esta e esta.